Entrevista – Nuno Nobre: “O confuso e complicado acaba por tornar tudo sempre bem mais divertido.”

Em Novembro de 2010, escrevi, aqui no blog, um post que falava da colaboração de Nuno Nobre com a “BlueWater Production”, para desenhar uma BD de Angelina Jolie.

Semanas mais tarde, Nuno Nobre, comentou o referido post e aproveitei a oportunidade e disponibilidade, que desde já agradeço, para o convidar para uma entrevista ao “Por aqui, por aí”.

Depois de alguns emails trocados e uma longa pesquisa, a entrevista foi feita e, agora, publicada.

 

Nuno Nobre, designer, licenciado em arquitectura, ficou conhecido por integrar um projecto da “BlueWater Productions” (EUA), no qual foi o ilustrador de uma BD sobre a vida de Angelina Jolie.

Nuno Nobre

(Blog) A tua formação inicial foi feita em arquitectura, quando nasce o interesse pelo design?

(Nuno) O interesse pelo Design não nasceu logo desde o início. Sempre tive o gosto de desenhar e o sonho de participar em BD’s e desenhos animados, mas infelizmente o mercado em Portugal era bastante pobre e realmente também penso que na altura não havia formação nessa área (ou pelo menos eu não estava bem informado). Havia duas áreas que gostaria de seguir: Arqueologia ou História de Arte. Mas como eram duas áreas do qual também não havia muito trabalho, acabei por optar pela Arquitectura pelo facto de abranger outras áreas como o Design, história e cenografia, do qual eu apreciava bastante. E assim fiquei-me pela arquitectura, mas sempre um pouco descontente, e então especializei-me num mestrado de Design de Interiores em Madrid e aí sim poderei dizer que finalmente ganhei o gosto pela área do Design.

(B) Actualmente tens vínculo laboral com a “Bang! Bang! Animation”, pode dizer-se que o trabalho como freelancer “não paga contas”?

(N) Eu penso que depende do freelancer e do número de clientes que tenha, mas realmente a BANG BANG além de um reforço, é também um estúdio do qual eu gosto imenso de trabalhar, apesar do desejo forte de querer envolver-me em projectos freelancer constantemente.

(B) Tens um projecto com o qual assinas os teus trabalhos como freelancer, o “Kreative Pocket” (KPocket.com). Na página Web defines o espaço como sendo “por vezes experimental, noutras vezes totalmente corrompido”, é essa a tua filosofia de trabalho?

(N) Sim, defino dessa forma, pois penso que é a maneira geral de como todos os trabalhos se expressam. Experimental porque muito do meu trabalho baseia-se num gosto próprio e tento sempre criar e desenhar mundos e personagens, mas definindo uma linha e uma estética que são minhas ou que tento estudar / “experimentar”, por outro lado é Corrompido pelo facto de termos de nos sujeitar às exigências do mercado de hoje e também a alguns, ou outros gostos estéticos que não os nossos.

(B) Dizes ainda, na apresentação do KPockect, que nasceu de “uma ideia confusa, que gradualmente foi ganhando forma até se transformar num projecto concreto”, é desta forma que desenvolves os teus trabalhos?

(N) A maioria das vezes quiçá, mas realmente não deveria ser assim. Se bem que o confuso e complicado acaba por tornar tudo sempre bem mais divertido.

(B) Apesar do reconhecimento que já tens nas áreas em que desenvolves o teu trabalho, o reconhecimento público surgiu com o trabalho de BD para a “BlueWater productions”, sobre a vida de Angelina Jolie. Como surgiu esta oportunidade?

"Female Force"- Angelina Jolie, Esboço Nuno Nobre

(N) A oportunidade surgiu quando fui a Nova Iorque fazer um Workshop de Desenhos animados. Decidi investigar as editoras que existiam no Estados Unidos, além das mais concorridas, já que era do meu interesse tentar algo em ilustração para BD. Enviei o portfolio e currículo a algumas editoras e chamaram-me da BlueWater com a opção de fazer duas BDs, entre as quais a da Biografia da Angelina Jolie.

(B) Trabalhaste juntamente com o argumentista Brent Sprecher, como foi trabalhar com esta referência da escrita?

(N) Eu não conhecia o Brent e o contacto que tive foi maioritariamente com o editor, Darren. Mas recebi um e-mail do Brent a felicitar-me pelo trabalho e realmente fiquei bastante contente com o argumento, já que receava que a história fosse muito orientada para a fama e vida pessoal e íntima da Angelina. Acabou por ser todo o contrário e certamente tenho vontade de colaborar com ele em outras oportunidades.

(B) Que tipo de preparação existiu, da tua parte, para desenvolver este trabalho?

(N) Não houve muita preparação, já que todo o briefing e referências foram-me enviadas pelo editor.

(B) Quanto tempo foi necessário para desenvolveres todo o projecto?

(N) Cerca de 4 meses. Mas também porque o editor deu-me liberdade de tempo e eu tinha outros projectos, em paralelo, e então fui avançando mais ou menos, uma ou duas páginas por semana.

(B) Quais as principais dificuldades no desenvolvimento deste projecto?

(N) Foi difícil sobretudo na técnica que, tão pouco, permitia uma cópia exacta da Angelina, ou mesmo detalhar as expressões faciais. O processo a caneta dificulta esse objectivo. Se tivesse sido inteiramente a lápis possivelmente exigiria um desafio maior, mas o resultado também teria sido bastante melhor. Por outro lado espero que o colorista também tenha ajudado no resultado final das imagens.

(B) A pergunta que todos os homens têm curiosidade em ver respondida… Houve algum contacto com a Angelina Jolie, antes, durante ou depois do trabalho?

(N) Em todos os momentos. (LOL) Mentira…infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-la, mas fico sentado ao lado do telemóvel á espera de uma chamada a qualquer momento, lol.

(B) (LOL) Voltando às perguntas mais sérias…

Agora, que a “Female Force”, sobre a Angelina Jolie, chegou às bancas, qual é a sensação de ter participado na sua elaboração?

(N) Sinto-me satisfeito e com um certo orgulho pelo mediatismo, mas também com a esperança de que um ou outro trabalho me possa surgir mais tarde. Se não, é continuar a batalhar e procurar por mais oportunidades.

(B) Com a participação neste projecto, mais portas se abrirão ao teu trabalho, existem já alguns contactos?

(N) Infelizmente não se abriram grandes portas, mas possivelmente colaborarei em mais dois projectos com a BlueWater, entre os quais um comic de uma colectânea de histórias de terror contadas pelo actor Vicent Price.

(B) Para concluir… Sei que tens um projecto pessoal para o desenvolvimento de uma BD, em que situação está?

(N) Numa situação abandonada: lenta em alguns momentos e que avança bastante rápida em outros momentos. LOL

Agora penso que poderei dedicar mais tempo a esse projecto pessoal. Mas como digo, é pessoal e ainda trabalho no argumento, algo do qual estou com algumas dificuldades, para dizer a verdade, mas é algo pensado para mim. Se vai trazer frutos mais tarde não sei, mas seria bom…

(B) Podes levantar a ponta do véu sobre a história que tens em mente?

(N) É a história de vários personagens durante o séc. XVI em Portugal, mas é um trabalho que exige muita pesquisa e desejo que realmente fique algo bastante estruturado e coerente.
Tenho só algum concept art, mas tudo ainda num conjunto de ideias que certamente terão mil modificações ainda.

 

A entrevista terminou com agradecimentos mútuos.

Fiquei curioso por saber mais coisas e por ver concretizado este projecto do Nuno. Especialmente numa época em que vivemos uma “crise de identidade”, muito fomentada pela crise económica.

Ilustrar a história pode ser uma boa forma de a dar a conhecer a todos, principalmente aos mais jovens.

Para terminar, deixo aqui um outro trabalho do Nuno Nobre, desta vez em vídeo. A apresentação, feita em inglês, é retirada do canal do designer no Youtube.

This is a Short animated movie that I started at the School of Visual Arts, NY, and finished back in Portugal. It´s the story of two neighbours and the tension between their feelings. It´s up to their “feet” to turn things around and make them fall in Love.

My intention was to work closely with layout design and animation backgrounds and create something funny where I could explore fast character movements and animate these on a very simple limited 2D technic, mostly with key frame positions and just a few in-betweens, resembling sometimes to cut outs.

Photoshop, Flash and After effects were the tools I used for this project.


2 comentários a “Entrevista – Nuno Nobre: “O confuso e complicado acaba por tornar tudo sempre bem mais divertido.””

  1. UAU! Gostei da entrevista! Nuno, és mais “famoso” do que eu pensava… além de gostar muito do trabalho que fazer… agora passo a fazer.te uma vénia todos os dias, quando te vir 😀 (estou a falar a sério).

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