Escritor brasileiro arremata secretária e máquina de escrever de Pessoa por 80 mil euros

Quase 80 anos depois, a secretária e a máquina de escrever em que Fernando Pessoa trabalhou em 1934 e durante quatro anos, quando era empregado da Sociedade Portuguesa de Explosivos, deixaram de ser objectos de trabalho e passaram a ser adorados pela sua história. História essa que foi comprada pelo advogado e escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho que, nesta terça-feira à noite, comprou as duas peças no leilão de antiguidades, objectos e arte moderna e contemporânea da leiloeira World Legend, em Lisboa.

O leilão foi anunciado na semana passada e, a avaliar pelas cerca de 30 pessoas na sala, parece ter despertado a atenção dos interessados na vida e obra do escritor português. Se o leilão começou calmamente com as primeiras peças a serem leiloadas rapidamente e sem grandes disputas, no fim quando à praça foram obras de Paula Rego, seguidas então pela máquina de escrever e a secretária, foram várias as licitações. Notou-se que os últimos objectos eram os mais desejados, tendo superado em muito as estimativas da leiloeira. 

Quanto ao lote 196, Clara Ferreira Marques, directora da leiloeira e que conduziu o leilão, disse finalmente ter chegado o momento mais esperado da noite, sentiu-se a agitação na sala. A máquina de escrever, da marca Royal, em que Fernando Pessoa terá escrito mais do que apenas o seu trabalho – como disse ao PÚBLICO Clara Ferreira Marques –, foi à praça por 3000 euros e acabou arrematada por 22 mil euros, muito acima da estimativa mais alta da leiloeira que apontava para os 5000 euros. A disputa foi renhida mas José Paulo Cavalcanti Filho, que não esteve na sala mas acompanhou o leilão por telefone, acabou por ganhar. 

A secretária e a máquina de escrever com que Fernando Pessoa trabalhou em 1934 – Photo by: Nuno Ferreira Santos

O mesmo aconteceu à secretária em mogno, com tampo de esteira, quatro gavetas de cada um dos lados, o interior forrado a pele verde e com diversos compartimentos. A peça foi à praça por 10.000 euros e foi vendida por 58 mil. A disputa foi novamente entre José Paulo Cavalcanti Filho e António Abreu de Guimarães, um particular que apenas foi ao leilão por causa destas duas peças e que desistiu quando percebeu que o brasileiro não o ia fazer. 

Com o acréscimo da comissão da leiloeira e do IVA, o preço final das peças ficou a 26,059 euros a máquina de escrever e 68,701 euros a secretária.

“Eu não frequento muito isto mas vim aqui de propósito só para aquelas duas peças”, disse ao PÚBLICO António Abreu de Guimarães no fim do leilão, explicando que já esperava que a compra fosse difícil. “Tinha a percepção de que haveria dificuldades porque soube que tinha havido muitas consultas e interesse antes do leilão”, continuou António, que apenas queria as peças para ter em casa e “de vez em quando olhar para elas e mostrar à família”. “É por ser de quem é, Fernando Pessoa.”

Já os representantes de José Paulo Cavalcanti Filho, que recentemente editou o livro “Fernando Pessoa – Uma Quase Biografia”, não quiseram falar sobre os interesses do escritor mas destacaram: “Ele é um pessoano”. Um pessoano que comprou as estrelas do leilão. 

Mais do que meros objectos de trabalho, estas duas peças carregam o peso da história de terem pertencido a um dos maiores autores portugueses. 

A secretária e a máquina foram utilizadas por Fernando Pessoa quando trabalhou na Sociedade Portuguesa de Explosivos, no Largo do Corpo Santo, n.º28, na esquina com a Rua do Arsenal, em Lisboa, mas não fizeram parte do seu espólio.

Como contou Clara Ferreira Marques, as peças faziam parte da família do proprietário da empresa para a qual Fernando Pessoa trabalhou e terão passado de geração em geração. “O neto do primeiro dono do escritório sempre ouviu estas histórias. Aliás esta família acabou por acompanhar Fernando Pessoa nos seus momentos mais difíceis.”

Tanto a secretária como a máquina de escrever integraram a exposição dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, em 2008, organizada pela empresa de advogados ABBC e pela editora Assírio & Alvim.

Outro dos destaques do leilão foi um desenho a lápis sobre papel, assinado e autografado por Paula Rego. O desenho, “Emília”, foi à praça por 2500 euros e foi arrematado por 5400 euros. A estimativa mais alta da leiloeira apontava para os 4000 euros.

Fonte: Público

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