Re-Food chega a Telheiras, mas o seu fundador quer cobrir Lisboa inteira

As rodas da bicicleta de Hunter Halder não param. O projecto Re-Food, que há mais de um ano contribui para travar o desperdício alimentar e matar a fome aos mais carenciados na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, vai ter um novo núcleo no fim do mês, em Telheiras. Em simultâneo, arranca uma campanha para angariar voluntários que ajudem a espalhar o projecto pela cidade.

O espaço que vai acolher o novo “centro de operações” do Re-Food foi cedido pela EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. A associação Re-Food 4 Good, criada pelo consultor norte-americano Hunter Halder para concretizar o projecto, apenas tem de fazer algumas obras de remodelação. Foi um grupo de moradores de Telheiras que propôs a abertura de uma “filial” no bairro. Uma dezena de voluntários procurou estabelecimentos disponíveis para doarem comida e está a sinalizar as pessoas carenciadas com o apoio da Igreja.

“Implantar para crescer” é a máxima em que se baseia o Re-Food, explica Halder. E por crescer, entenda-se chegar a todas as freguesias da capital. O objectivo é abrir 30 a 40 núcleos na cidade, que terão de envolvercerca de 10.000 voluntários. Para instalar e equipar os centros são necessários 200 mil euros. A associação quer também ter o apoio de entidades que já estão no terreno, como o Banco Alimentar contra a Fome, a Igreja e instituições de solidariedade social. 

O Patriarcado de Lisboa é a primeira porta à qual Halder vai bater pedindo, por exemplo, espaço nos boletins informativos para espalhar a mensagem. É nos bancos das igrejas que o fundador do Re-Food espera encontrar pessoas com mais tempo livre, nomeadamente reformados, que possam formar os núcleos duros dos grupos de voluntários. Estes vão continuar a trabalhar numa lógica de bairro.

Até ao final de 2014, Halder quer ter o “Lisboa 100%” (projecto para a cobertura total da cidade) a andar em velocidade de cruzeiro. “O objectivo é fazer de Lisboa a primeira cidade do mundo sem desperdício alimentar e sem fome”, sustenta. E a deadline não foi escolhido ao acaso: o Parlamento Europeu sugeriu à Comissão Europeia que 2014 seja proclamado Ano Europeu contra o Desperdício Alimentar. 

Aceitam-se voluntários

A corrida dos voluntários do Re-Food contra o desperdício de comida e contra a fome – muitas vezes envergonhada – começou em Março de 2011. Hoje apoiam 240 pessoas (há um ano apoiavam 70) e têm 60 restaurantes, cafés, pastelarias e supermercados da freguesia de Nossa Senhora de Fátima a doar alimentos – comida que não foi servida e que, apesar de estar em boas condições, não pode ser vendida e vai habitualmente para o lixo. 

O número de voluntários também cresceu: há um ano eram 50, agora são 140 que dedicam duas horas por semana à iniciativa. Dividem-se entre a recolha da comida nos estabelecimentos a pé, de carro ou de bicicleta, a separação das doses com base nas necessidades de cada família e a respectiva entrega. Por mês distribuem 5000 refeições.

“Aprendemos muito no último ano. Conhecemos melhor a população carenciada”, diz o norte-americano de 61 anos, a viver há 20 em Lisboa. Há um ano, a associação nem sequer tinha sede própria. Entretanto instalou-se num espaço atrás da igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde diariamente se dirigem 130 pessoas, muitas delas sem-abrigo. Aos restantes beneficiários, a distribuição é feita à porta de casa.

“Precisamos de mais 100 voluntários para estabelecer o projecto a 100% na freguesia”, afirma Hunter Halder. Alguns restaurantes ainda não aderiram e o número de pessoas a pedir ajuda não pára de aumentar, garante, acrescentando: “Queremos chegar a todos os potenciais sobreprodutores de comida da freguesia e a toda a gente que precisa.”

No próximo ano, o Re-Food vai apostar na presença em grandes eventos e festivais. “É uma forma de passar a mensagem e de sensibilizar as pessoas para se juntarem aos nossos núcleos.” Neste Verão, os voluntários já resgataram toneladas de comida em festivais como o Optimus Alive ou o Rock in Rio Lisboa – só neste último, recolheram 20 mil sandes. 

Um terço acaba no lixo

“Não há ninguém que goste de deitar comida para o lixo”, diz Hunter Halder. Mas a verdade é que isso acontece todos os dias. Segundo o relatório da agência da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO), de 2011, são desperdiçadas 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos por ano no mundo, ou seja, um terço da produção alimentar para consumo humano perde-se no caminho entre a produção e o consumo. Nos países industrializados, o volume de comida deitada fora pelos consumidores está estimado em 222 milhões de toneladas por ano – quase tanto como a produção alimentar dos países da África subsaariana. 

Faltam, porém, dados sobre a realidade portuguesa. O PERDA – Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar, desenvolvido pelo Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa é o maior estudo feito até à data sobre o tema em Portugal. As conclusões só serão apresentadas em Dezembro, mas David Sousa, um dos coordenadores, adianta alguns dados que estão em linha com as estimativas internacionais. “Do volume de alimentos produzidos, 40% perdem-se entre os supermercados e as famílias. Estas são responsáveis pelo desperdício de 25% do total”, afirma o investigador. No entanto, o estudo não analisa o contributo do sector da restauração para o desperdício e também não há valores de referência internacionais.

Quando lançou, em 2010, uma petição contra o desperdício alimentar (que conseguiu mais de 70 mil assinaturas), o piloto de aviação António Costa Pereira tentou fazer essas contas. Concluiu que diariamente são desperdiçadas pelo menos 50 mil refeições em estabelecimentos de restauração de todo o país. Mas este número é apenas uma estimativa. Faltam-lhe, por exemplo, os alimentos deitados fora pelas empresas que gerem as máquinas de venda automática de comida. “Através do movimento Zero Desperdício (ver texto secundário), há uma empresa que doa diariamente 350 alimentos, embalados e dentro da data de validade”, exemplifica o piloto. 

A petição de António Costa Pereira serviu para agitar consciências e mudar a interpretação da lei, que antes era um entrave ao aproveitamento das sobras. O assunto entrou na agenda política e foi contemplado no Plano de Emergência Social lançado pelo Governo, que coloca a ASAE como parceira das instituições. “Nada proíbe a doação da comida desde que as normas de segurança alimentar sejam respeitadas”, nota Hunter Halder.

Programa camarário contra o desperdício ficou no papel

A Câmara de Lisboa aprovou em Dezembro de 2010 uma moção apresentada pelo CDS-PP que previa a criação de um programa de combate ao desperdício alimentar, mas o plano nunca saiu do papel. 

A autarquia deveria ter definido uma estratégia com as juntas de freguesia, paróquias e o sector da restauração. “Levantaram-se problemas ao nível da garantia de qualidade dos alimentos e da segurança alimentar”, justifica a vereadora da Acção Social, Helena Roseta. Segundo a autarca, “os restaurantes não mostraram disponibilidade” e “não se encontrou uma forma prática para transportar a comida”. 

A câmara optou então por outro caminho. “Estamos a desenvolver uma estratégia para os sem-abrigo, através da Rede Social de Lisboa, para substituir a distribuição de refeições na rua pela distribuição em refeitórios municipais. O objectivo é dar condições de mais dignidade às pessoas que estão na rua, trabalhando com entidades que já dão apoio no terreno”, diz Helena Roseta. Nos últimos meses essas refeições têm sido servidas no refeitório de Alcântara, através do projecto Serve The City Lisboa (um movimento de inspiração cristã que organiza jantares comunitários). O objectivo da câmara é alargar a experiência a todos os refeitórios municipais, uma vez por semana. Cada jantar custa 2000 a 3000 euros, pagos por mecenas.

Sublinhando que a câmara “não é a Santa Casa da Misericórdia”, Roseta afirma que a intervenção da autarquia neste domínio é “limitada” e que “é impossível” estar a par das carências alimentares que existem num universo de 500 mil pessoas. “Temos um papel catalisador, não de intervenção directa. Esse está reservado às instituições e à sociedade civil”, argumenta. Ainda assim, a câmara associou-se ao movimento Zero Desperdício, que faz a ponte entre autarquias, instituições de solidariedade e fornecedores de comida. O objectivo do projecto é semelhante ao do Re-Food – reduzir o desperdício e matar a fome. O movimento foi lançado em Abril pela associação DariAcordar, e já permitiu o resgate de mais de 44.800 refeições nos concelhos de Loures e Sintra, e nas freguesias da Lapa e Campolide, em Lisboa. Cascais vai associar-se em Outubro, mas tem já uma rede informal com o mesmo objectivo. “Somos facilitadores. Fazemos protocolos com quem pode doar a comida, depois batemos à porta dos municípios, que nos indicam as instituições locais com capacidade para recolher e distribuir as refeições e sinalizar as famílias carenciadas”, explica António Costa Pereira, piloto de aviação e um dos fundadores da associação. 

O projecto não funciona da mesma forma em todos os locais. Em Campolide, onde já foram resgatadas mais de 10.000 refeições doadas por 13 estabelecimentos, é a junta que faz o trabalho de recolha e distribuição, apoiando cerca de 150 pessoas. Na Lapa, onde são apoiadas mais de 70 pessoas, essa tarefa está a cargo de instituições de solidariedade social, que têm os recursos necessários, e a junta faz a triagem e o encaminhamento das pessoas carenciadas. Nesta freguesia, em Julho, foram doadas em média 35 refeições por dia, provenientes da cantina da Assembleia da República e das Oficinas de S. José.

Em Loures, é a câmara que trabalha directamente com as pessoas carenciadas e com os estabelecimentos. De Maio a Julho, foram apoiadas 390 famílias e recolhidas 14 toneladas de alimentos, com um valor comercial de 24 mil euros que seriam deitados ao lixo. Segundo a vereadora municipal com o pelouro da Acção Social, Sónia Paixão, os pedidos de ajuda têm vindo a aumentar. Por isso, além de se ter associado ao movimento Zero Desperdício, a autarquia criou três lojas solidárias que fornecem bens não perecíveis – de Abril a Julho foram apoiadas 212 famílias. 

O movimento Zero Desperdício surgiu depois da campanha Direito à Alimentação, lançada em 2010 pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP). No entanto, a crise deixou o projecto em stand by.

Fonte: Público

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