Há guerra na net para eleger igreja portuguesa como melhor recanto de Espanha

A Igreja da Madalena, na Olivença de administração espanhola, está na final de uma competição que elege os melhores e mais pitorescos recantos espanhóis. Este monumento manuelino chega a esta fase, onde todos podem votar, muito graças ao forte empenho de comunidades online portuguesas. E está a um passo de vencer a competição, quer termina dia 26.

Olivença já está habituada à disputa, velha de mais de dois séculos, sobre ser portuguesa ou espanhola. A Espanha anexou o território em 1801 mas ainda hoje Portugal não reconhece tal anexação desta cidade fronteiriça localizada na Extremadura espanhola, naturalmente repleta de história e traços da cultura lusa. Incluindo monumentos como a Igreja de Santa Maria Madalena (conhecida como Igreja da Madalena), agora no centro de uma nova guerra mas na Internet: há milhares de portugueses a tentar levar o monumento à vitória numa eleição “à 7 Maravilhas” mas dedicada a entronizar “El Mejor Rincón [recanto] de España“, evento e marketing lançado pela empresa Repsol, que também edita guias turísticos.

“Este templo paroquial de princípios do século XVI, obra-prima do estilo manuelino, recorda-nos o passado português de Olivença (Badajoz), hoje uma das mais belas villas da Extremadura”. É assim que é apresentada a igreja de matriz portuguesa no site onde se desenrola a competição. O monumento chegou à fase final, que disputa com outra “maravilha”, mas natural, a Lagoa de la Gitana, em Castela-La Mancha.

Pela net lusa, encontram-se vários movimentos de apoio e incentivo ao voto na Madalena. Nomeadamente o Café Portugal, portal dedicado à cultura e tradições portuguesas – que mereceu até o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa à iniciativa no seu espaço televisivo na TVI. E particularmente, tendo em conta a sua dimensão (quase 550 mil aderentes), o Descobrir Portugal, comunidade do Facebook que se redobra em incentivos ao voto (“Votar na catedral construída pelos portugueses é dar visibilidade a Olivença”, sublinham). Do lado espanhol, a igreja também recolhe fortes apoios, com direito a divulgação pelo turismo e autarquia locais.

Após uma primeira ronda com dezenas de “rincones” em jogo, passados os quartos-de-final e as semifinais, a grande final Madalena x Laguna de la Gitana decorre agora até dia 26 de Setembro. Para participar na votação, basta um registo no site; depois disto, é possível votar duas vezes por dia no recanto favorito.  

“Promoção” ou “provocação”?

“Passaram-se dois séculos e Olivença continua a conservar o rosto e a doçura de quando era lusa”, lê-se na ficha de “candidatura” da catedral. Mas há quem não tenha gostado nada de tal “candidatura”. Do lado dos defensores da Olivença como parte de Portugal, o grupo português Amigos de Olivença, que tem entre os seus objectivos “pugnar, por meios não violentos, pela reintegração de Olivença”, adiantou, em comunicado, que a escolha da igreja para tal eleição “não será certamente inocente e deverá levar todos os portugueses a questionar quais os reais motivos dos organizadores do evento”. Para este grupo, não passa de uma “provocação”. “Esta ‘honra’ assume os contornos de uma indecorosa tentativa de legitimação da ocupação do território de Olivença junto da opinião pública portuguesa”, opinam.

Já a associação Além Guadiana, composta em grande parte por “oliventinos que partilham o interesse pelo estudo, a recuperação, a promoção e o prazer da cultura portuguesa em Olivença”, apela ao voto na igreja e defende a eleição como uma promoção cultural e patrimonial. Até porque, sublinham na sua apresentação, têm objectivos “estritamente culturais”, “à margem de qualquer fim de carácter político ou territorial” .

Na próxima semana já se saberá se uma igreja portuguesa de corpo e alma ostentará, de facto, a coroa de “melhor recanto de Espanha”.


A Igreja da Madalena

Segundo o resumo patrimonial do Turismo de Olivença, é considerada uma “jóia” oliventina e do património manuelino português, data da primeira metade do séc. XVI e foi mandada construir para servir como templo do local de residência dos bispos de Ceuta. O bispado de Ceuta iniciou aqui residência em 1512, tendo sido estreada por Frei Henrique de Coimbra, confessor do rei D. Manuel e o primeiro a celebrar uma missa no Brasil. Falecido em 1532 e foi sepultado no templo (existe um túmulo de mármore no local). No exterior, destacam-se falsas ameias, pináculos, gárgulas e a porta principal, com uma portada atribuída a Nicolás de Chanterenne, artista que em Portugal, além de outras obras, criou a porta do Mosteiro dos Jerónimos ou um retábulo de mármore do Palácio da Pena. O interior divide-se por três naves com oito colunas que parecem evocar as amarras de um navio. Em grande destaque, os trabalhos em talha dourada do séc. XVIII, retábulos neoclássicos em mármore colorido e azulejaria.

Fonte: Público

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